A leitura escolhida para esta semana na newsletter Rabiscos é “Para não dizer que não falei de flores”, texto nº 126, escrito pela jornalista, professora e pesquisadora Lucia Santa-Cruz.
O texto fala sobre a angústia de Lucia, e de muitos brasileiros, sobre a atual situação política do país.
Chove lá fora, aquela chuva criadeira que vai se arrastar até de noite. Ontem foi um dia inteiro de sol e céu azul, sem vento, daqueles que dá vontade de passear pelas praças e flanar pela cidade (só que eu tinha uma visita técnica a um museu e trabalho). Amanhã está previsto um sábado ensolarado.
Variação típica do outono, dizem os montrealenses.
Para mim, parece um reflexo do que estamos vivendo desde o resultado do primeiro turno.
Dias de pura esperança, seguidos de manhãs de inquietação e desânimo, que desembocam em amanheceres de expectativa.
A convicção de que vamos conseguir virar e impedir a chegada do fascismo, oscilando com o medo de estar superestimando a bolha democrática.
Ligando os extremos, a certeza de que sempre seremos resistência, porque não há outro caminho possível.
Enquanto dia 25 não chega, mobilização digital intensa, que rouba a concentração e atrapalha a produção acadêmica. E também escamoteia minhas observações sobre a cidade e sobre este período por aqui no hemisfério norte.
Afinal, como falar de flores quando a ameaça está à nossa porta, ao nosso lado, formulada por um colega de trabalho, uma vizinha, um parente, um amigo (ou agora ex-amigo)?
Estamos monotemáticos. Como ser diferente?
Quando preparo uma aula sobre memória coletiva, é impossível não falar da situação política brasileira no momento, e dos riscos que vivemos com os usos que possam vir a ser dados ao nosso passado e ao nosso presente.
Quando interajo com mestrandos e doutorandos daqui, não consigo deixar o assunto de lado. Vários deles me perguntam como está o processo eleitoral, como foi possível o filho do Bolsonaro ter a expressividade nacional que alcançou. Muitos também desconhecem o estágio atual do país, embora saibam do período autoritário que antecedeu o terceiro mandato do Lula.
Quando converso com pesquisadores e professores, vários deles vindos da Europa para trabalhar aqui, nos solidarizamos (e nos impressionamos) juntos frente ao crescimento da extrema-direita no mundo, e não apenas no Brasil, como um fenômeno coordenado mas que nunca havíamos imaginado que pudesse retornar, depois do nazismo.
Este cenário me reforça a ideia de que é difícil escrever, falar, conversar sobre outros assuntos neste momento. Ainda que a vida não seja só política, a política é fundamental sobre a vida coletiva, e se esparrama também pelas vidas individuais.
Este texto não é pra desanimar ninguém. Pelo contrário! Mas talvez seja para falar do meu espanto com, a esta altura, ainda estarmos precisando de lutar para que uma nova noite escura caia sobre nós.
Vamos então enfrentar a chuva, o vai-e-vem das emoções, a incerteza se teremos sol, e continuemos lutando, com garra, energia, habilidade.
E pra não dizer que não falei de flores, mesmo no outono elas insistem, e ainda desabrocham em canteiros tímidos.
Que nossa luta insista sempre em desabrochar e em transformar os canteiros, apesar das ervas daninhas que teimam em aparecer.
Seguimos mobilizadas e mobilizados, e nas ruas!
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