A leitura escolhida para esta semana na newsletter Rabiscos é “Sobre videocassetes, CTRL +Z e canetas”, texto nº 114, escrito pela jornalista, professora e pesquisadora Lucia Santa-Cruz.
No texto, Lucia quer dizer que, apesar de a tecnologia nos permitir controlar muitas coisas, como pausar, voltar, avançar ou desfazer ações, a vida real não funciona dessa maneira. Ela mostra que muitas vezes gostaríamos de ter um “Ctrl + Z” para voltar no tempo e corrigir nossos erros, apagar palavras que dissemos, mudar atitudes ou evitar situações das quais nos arrependemos. Porém, na vida, não podemos simplesmente apagar o que aconteceu e começar novamente. Nossas escolhas, palavras e atitudes deixam marcas e fazem parte da nossa história.
Como eu sou antiga, sou do tempo em que videocassetes eram uma novidade. Meu marido e eu trouxemos o nosso primeiro aparelho de Manaus, depois de passarmos um mês na estação ecológica de Anavilhanas, no Rio Negro (então um destino remoto e nem um pouco turístico). Além do conforto de assistir filmes no aconchego do sofá de casa, descobrimos a maravilha de gravar programação da tv para assistir quando quiséssemos ou pudéssemos, dar pausa para ir rapidinho no banheiro, voltar alguns segundos quando se perdia um diálogo ou não se entendia bem uma trama.
Fiquei tão viciada nestas facilidades que quando ia ao cinema precisava fazer um esforço extra para me concentrar. Afinal, cinema é imersão e não comporta distrações como o videocassete permitia.
Logo me peguei, em outras situações que não a de expectar um filme, desejando ter um botão de pausa, de rewind ou até mesmo de fast foward.
Várias mudanças tecnológicas depois, hoje praticamente não se assiste mais nada linearmente. A grade das televisões abertas está implodida, mesmo que siga existindo. O país que dava boa noite ao Cid Moreira e mergulhava na novela das 8 (que hoje é às 9: 30 rsrsrs) não existe mais. Vivemos no on demand, direcionados pelos algoritmos, o pescoço vergado sobre pequenas telas que seguramos com empenho. Nossa mais preciosa extensão corporal.
Se hoje temos a capacidade de acelerar a reprodução de podcasts e vídeos, exercendo nossa possibilidade de consumir conteúdo em diferentes velocidades, pode parecer que controlamos os momentos.
Ai uma noite você se pega pensando em como seria bom se a vida tivesse uma combinação de teclas que “salva” em várias situações: CTRL + Z. Também conhecida como UNDO ou desfazer. Ou aquela setinha de alguns programas que é só clicar e se retorna à ação anterior.
Seria tudo de bom se a gente pudesse simplesmente voltar atrás, desfazer um ato mal feito, uma frase mal dita, um sentimento mal pensado. Seria tão maravilhoso poder consertar o que não ficou bom simplesmente retornando ao estágio anterior.
Na época do papel e lápis era possível apagar o que se escreveu errado. Ganhar o direito de usar caneta também era receber o direito de escrever certo de primeira. Na prova não dava pra rasurar. O remédio era fazer rascunhos e só passar a limpo o que estivesse pronto.
Só que viver não tem rascunho, não é processador de texto, não admite apagar e fazer de novo. Viver é escrever sempre de caneta, mesmo que a tinta esteja falhando. Viver é imprimir marcas indeléveis, que não existe borracha que apague.
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