“Isso daqui é trabalhar por amor”, afirma Maria Inés Castiñeira ao falar sobre sua experiência como ministrante da atividade "Aquarela para Iniciantes", do NETI-UNAPI. Entre computadores, pincéis, livros e papéis de aquarela, a trajetória de Inés revela uma combinação pouco óbvia, e justamente por isso, tão interessante. Formada em Ciência da Computação, com mestrado e doutorado na área, Inés construiu parte significativa de sua carreira no ambiente acadêmico. A arte, porém, sempre esteve presente em sua vida e, aos poucos, conquistou um espaço cada vez maior até chegar às salas de aula do NETI-UNAPI.
Nascida em Buenos Aires, na Argentina, Inés mudou-se para Bahía Blanca aos 10 anos. Anos mais tarde, iniciou seus estudos em Arquitetura, curso que frequentou por três anos. Em 1984, mudou-se para São Carlos (SP), para ingressar no curso de Ciência da Computação da Universidade de São Paulo (USP). Em 2006, em Florianópolis, começou a aprofundar sua formação artística por meio de aulas de Ilustração Naturalista ministradas pelo professor Leandro Lopes. A partir dessa experiência, explorou diferentes técnicas e materiais, como grafite, guache, lápis de cor, aquarela e pintura acrílica. Mais tarde, na universidade, também teve a oportunidade de ministrar aulas de desenho nos cursos de Desenho e Moda.
Em meio ao isolamento social da pandemia de Covid-19, Inés reuniu amigas interessadas em aprender aquarela e passou a oferecer aulas virtuais aos sábados. O que começou como uma maneira de ocupar o tempo logo se tornou também um espaço de acolhimento e convivência. “A gente inventou aquilo para passar o tempo nos momentos difíceis que a vida traz. Era aula de aquarela, mas, na verdade, era uma terapia. Para a gente, era terapêutico”, conta.
Entre as participantes estava Angela Maria Alvarez, enfermeira aposentada que coordenou o NETI-UNAPI de 2005 a 2011. Foi ela quem incentivou Inés a levar a experiência para o Núcleo. Em 2023, a professora voluntária começou a ministrar a atividade "Aquarela para Iniciantes".
Inés entra no NETI-UNAPI em 2023
As aulas de "Aquarela para Iniciantes"
No primeiro semestre, a turma era pequena. Com o aumento da procura, surgiu a necessidade de ampliar a equipe. Inés passou, então, a convidar alunas que demonstravam interesse e habilidade para colaborar nas aulas. A primeira parceria foi com Tereza Cristina Gomes Maia, que atualmente ministra a atividade "Colorindo com Lápis de Cor". Depois, outras participantes passaram a integrar a equipe, como é o caso de Nora Milmann, que ingressou como aluna em 2024, assim como Adriane Batistella Scherner, que começou a colaborar no semestre passado. Além de permitir o compartilhamento de conhecimentos e experiências, a formação de uma equipe contribui para a continuidade da atividade quando Inés precisa se ausentar ou viajar.
O espaço das aulas também precisou aumentar. Hoje, os encontros acontecem em uma ampla sala do Departamento de Arquitetura da UFSC, com grandes janelas e abundante luz natural, um ambiente que favorece a prática artística e torna a experiência de pintar ainda mais agradável.
Não é necessário ter experiência prévia com pintura para participar da atividade. As alunas levam seus próprios materiais, enquanto as ministrantes organizam as aulas a partir de exercícios práticos e objetivos de aprendizagem. Os encontros começam com a apresentação dos materiais e orientações sobre o uso dos pincéis e da aquarela.
Ao longo do semestre, as participantes entram em contato com conceitos como círculo cromático, cores complementares, luz e sombra, contraste, transparência e texturas. Em algumas atividades, utilizam uma mesa de luz para transferir desenhos para o papel próprio para aquarela antes de iniciar a pintura. Cada exercício propõe um desafio diferente, respeitando os conhecimentos adquiridos ao longo do curso.
A turma reúne participantes de diferentes idades e níveis de experiência. Há mulheres na faixa dos 50 anos e outras com mais de 80, assim como quem está experimentando a aquarela pela primeira vez e quem já frequenta as aulas há vários semestres. Essa diversidade faz com que cada participante tenha seu próprio ritmo e desafios. Enquanto algumas começam pelos exercícios básicos, outras se aventuram em propostas mais complexas. Cabe às ministrantes acompanhar essas diferenças e orientar cada aluna sem transformar o aprendizado em uma cobrança por resultados. Inés reforça que o objetivo das aulas não é produzir uma obra perfeita, mas aprender, experimentar e aproveitar o processo. A convivência exige respeito aos limites individuais, atenção às necessidades de cada pessoa e incentivo sem cobranças desnecessárias.
De acordo com as ministrantes, pintar exige concentração, paciência, disciplina e atenção. É preciso observar as cores, controlar a água, acompanhar os detalhes e permanecer concentrado na atividade. "A aquarela ajuda a desacelerar, a baixar a ansiedade", afirma Nora, que também é psicóloga.
Inés observa que muitas pessoas chegam às aulas preocupadas ou atravessando momentos difíceis e encontram nas aulas uma oportunidade para sair de casa, conversar, conhecer outras pessoas e simplesmente fazer algo de que gostam. Para ela, a atividade pode ajudar alguém a sair de um período de isolamento, recuperar o prazer de pintar ou simplesmente reservar algumas horas da semana para fazer algo prazeroso. “Algumas pessoas que pintavam antigamente, mas que, por diversos motivos, deixaram essa prática, voltam a pintar nas aulas e acabam se reencontrando nas atividades do NETI-UNAPI.”
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