Rabiscos #66 - Ela até sabe usar a tecnologia!

A leitura escolhida para esta semana na newsletter Rabiscos é “Ela até sabe usar a tecnologia!”, texto nº 66, escrito pela jornalista, professora e pesquisadora Lucia Santa-Cruz.

Lucia mostra que a idade não determina a capacidade de uma pessoa aprender e utilizar tecnologias. A partir de suas experiências como professora, ela destaca o preconceito de que pessoas idosas não sabem lidar com recursos digitais. Embora reconheça que alguns idosos possam ter dificuldades com a tecnologia, explica que isso pode estar relacionado à falta de oportunidade, necessidade ou familiaridade com esses recursos, e não simplesmente à idade.

Ela até sabe usar a tecnologia!

Photo by Marta Filipczyk on Unsplash

Segunda semana de aula. Estudantes fazendo uma atividade em grupo, em sala. Turma nova, conheci há menos de 10 dias. Passo por entre as cadeiras, que eles deslocaram em novos arranjos para poderem fazer a tarefa. Pego meu tablete e vou anotando os nomes dos integrantes dos grupos, um procedimento que faço há anos. Até que ouço: “Nossa, adorei, ela usa o tablet para anotar!”.

A estudante que comentou isso não estava falando diretamente para mim, nem pensava que eu ouviria. Manifestava sua surpresa no seu grupo, formado por pessoas de sua faixa etária (e que provavelmente estavam tão impressionados quanto ela). Seu espanto não vinha, provavelmente, do fato de uma professora utilizar um dispositivo eletrônico em vez dos tradicionais papel e lápis. Era gerada por uma professora da minha idade utilizar um dispositivo eletrônico (=leia-se: saber usar).

Já vivi situações como essas várias vezes. Volta e meia, quando estou mostrando aos estudantes como fazer uma determinada tarefa no Word, um programa que utilizo intensamente desde 1993, ouço: “Professora, você é braba! Nunca pensei que você soubesse tanto!”.

A exclamação não vem porque eles estão estupefatos com meu conhecimento, mas sim porque eles não esperavam que justo eu, uma das professoras com mais idade que eles têm na faculdade, soubesse como utilizar um software que para eles é um mistério (adeptos que são do Google Docs, um primo pobre que não chega nem aos pés do produto do Bill Gates - e aqui não tem publi, só constatação).

Quanto mais velha uma pessoa é, menos capacitada ela é para transitar no mundo digital. Esta parece ser a visão do senso comum. Por isso surpreende tanto que alguém com 60 anos saiba mexer num tablet. e, mais incrível, utilize-o no seu dia-a-dia profissional. Ou saiba ensinar como fazer edição de áudio num software específico.

Não sou uma pessoa da área tecnológica, muito pelo contrário, sou de humanas (apesar de saber fazer contas), mas sempre lidei bem com o mundo digital. E não perdi esta habilidade, por mais que esteja envelhecendo.

Mas quem me conhece agora, momento em que já sou oficialmente idosa e tenho cabelos grisalhos, associa imediatamente que eu não sei lidar com o ambiente digitalizado. Que eu sou uma professora que só usa papel, caneta, que se atrapalha para ligar um computador. Afinal, nativos digitais são eles, os nascidos quando a internet já estava nas casas e até nos celulares. E, mesmo com esta data de nascimento, volta e meia estão atrapalhados com programas que não sejam redes sociais ou aplicativos de edição de vídeo simples.

Mais um exemplo de como o etarismo (da mesma maneira que todos os demais preconceitos) é baseado em pressuposições e generalizações que não se sustentam na realidade.

Não estou negando que muitos idosos tenham dificuldade em acompanhar a digitalização do mundo. Os fatores são diversos, passando pelo que se convencionou chamar de letramento digital, ou seja, uma certa alfabetização do uso da informática, dos equipamentos e das suas possibilidades de uso. Está relacionado também à necessidade (ou não) de utilização profissional ou no cotidiano. Pode até envolver uma nostalgia de quando os processos eram pessoais, mais lentos, e talvez mesmo mais simples.

De todo modo, ainda assim, existem vários de nós que dominam (mesmo) a tecnologia e a incorporaram em suas vidas. E isso não deveria ser motivo de espanto, porque só indica que seguimos participando da sociedade, utilizando as ferramentas que estão ao nosso dispor hoje em dia. Não apenas para ler jornais digitais com letras maiores, mas especialmente para interagir com o mundo e suas complexidades.


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