"Contaram a Contação": uma crônica de José Cajaíba

Foto ilustrativa

Contaram a Contação

José Cajaíba

- Verdade? Circula, transita por aí uma incerta fofoca, um descortês converseiro propagando que não devemos intitular um texto, tampouco uma história usando o verbo no passado. Considerando ser um assunto de alta controvérsia, prefiro e insisto em manter a forma verbal em questão e, numa vaidosa mania musical, desavergonhadamente imitar o Chico Buarque. “Agora eu contava histórias e a plateia só ouvia inglês.” Aplausos da “noiva do cowboy, além das outras três”.

- Verdade? Sem querer gramaticar a escrita, destaco algo meio curioso. As palavras contaram e contação possuem algumas características comuns: ambas são trissílabas de oito letras, com três letras na primeira e terceira sílabas e iniciam-se com “conta”. Complicadinha e fútil a trivial explicação. Sendo assim, admito as ricas presenças de um sensato equilíbrio e uma notável harmonia na titulação. Equilíbrio e harmonia, dois fortes atributos duma bela contação.   

- Verdade? O interessante é que o contaram em alguns, em vários e inúmeros momentos já foi conto, na forma presente; contar, no infinitivo; contando, no gerúndio. No nosso saber, simbolicamente e não, traduzimos e interpretamos o contaram nas três belas modalidades. Também podemos usar, aplicar a sensível ideia do passado onírico, adjetivando ainda mais nossa contação, trazendo o sonho para a realidade com fragmentos irreais, fantasiosos e imaginários. 

- Verdade? O encontro, o abraçar do sonho com a realidade. A união, o afagar da realidade com o sonho. Na contação, antes–durante–depois, desvairadamente transportamos, levamos o sonho para a realidade. O sonhar se mistura, se confunde com o realizar. Também na contação a realidade se dilui e entra em estado de renovação ao acarinhar, ao beijar o sonho. Na contação, graciosamente contada, o sonhar é um admirável realizar e o realizar é um sublime sonhar.      

- Verdade? Nós, todos nós, seres humanos possuímos a colorida e divertida capacidade de sonharmos acordados especialmente ao ouvirmos gentis, cordiais e pacíficas palavras pronunciadas por cultas e intelectualizadas pessoas durante uma envolvente, emocionante e cativante contação de histórias. Pessoas artísticas e musicalizadas. Pessoas que sabiamente trocam o “o” pelo “a” na primeira sílaba das palavras transformando-as em – Cantaram a Cantação.   

- Verdade? Se a contação contada já é um momento esplêndido, imagine ela cantada. Imaginou? Deve ser um grandioso cantar em exponencial. No mínimo, multiplicado por quatro. Em vez de “dois pra lá, dois pra cá”, são oito. Sim, oito é a quantidade de letras das palavras Contaram - Contação. Aqui, plagiando atrevidamente Aldir Blanc e João Bosco. “Sentindo frio em meu corpo me apresento para histórias cantar.” Se você acredita, então é verdade verdadeira!

Sobre o autor:

José Cajaíba é aluno da Oficina de Contação de Histórias - Aproximação Intergeracionais. O blog agradece e fica muito contente ao receber contribuições como esta.

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