Lucia Santa-Cruz reflete sobre o envelhecimento, liberdade de escolha e a possibilidade de viver sem que a idade seja vista como um limite para novas experiências e decisões.
Com a retomada do blog após as férias, também retomamos as postagens quinzenais dos textos da jornalista, professora e pesquisadora Lucia Santa-Cruz, que compartilha, a partir de sua perspectiva, reflexões sobre o processo de envelhecimento. Para o primeiro post do semestre 2026.2, o texto escolhido foi o nº 117, publicado na newsletter Rabiscos.
Nem toda cicatriz é lembrança ruim, algumas são escolhas deliberadas
Desenho de uma Sankofa que foi tatuado na perna esquerda de Lucia
Há pouco mais de uma semana, fiz duas tatuagens. Não foram as primeiras, já havia feito uma há quase 15 anos. Por que resolvi fazer agora? A pergunta mais adequada talvez seja: por que não?
Tatuagens já foram associadas com culturas marginais, com marinheiros, com práticas de alguns grupos em geral categorizados como outsiders. Depois entraram na moda, se diversificaram e se normalizaram. Há um estúdio de tatuagem em cada esquina, realities shows de tatuagens, e tatoos frutos de impulsividades regadas a excessos alcoólicos.
Mesmo assim, em geral associamos o ato de se tatuar a uma ação da juventude. As pessoas até envelhecem com suas tatuagens, mas se fala pouco sobre fazer uma quando estão mais velhas.
Mesmo que o ambiente da tatuagem seja disruptivo, parece que no imaginário social ainda confinamos tatoos a atos de jovens.
Pode-se argumentar que com o envelhecimento a textura da pele muda, o que é verdade. Mas esta mudança não é impeditiva de se fazer um desenho sobre a pele.
Já estava querendo uma nova tatuagem há algum tempo, mas não me programava pra isso. Aquela coisa, ah, quero, um dia faço, quem sabe mês que vem, o tempo vai passando e não tomo a atitude.
Não nego que chegava a pensar se a pele aguentaria, se o desenho com o tempo não enrugaria, se seria bom fazer. Se deveria mesmo fazer.
O empurrão veio do presente de aniversário dos filhos. Se juntaram e me deram um vale-tatuagem. Um deles até acompanhou o processo na tatuadora.
Saio do estúdio empolgada, reanimada, uma sensação de frescor. Alegre de ter ganhado mais duas tatuagens. Duas cicatrizes simbólicas (sim, sou do tipo que se tatua com significado), feitas na maturidade.
Envelhecer não pode ser ficar limitado mas deve ser o tempo das possibilidades e das escolhas. O momento em que fazemos coisas, tomamos decisões, escolhemos, porque chegamos a um estágio de experiência em que aquilo nos parece o melhor, o mais agradável, o que nós gostamos. Não porque é o que a sociedade nos impõe ou nos interdita.
Salvo por impeditivos de saúde, a idade não pode ser socialmente uma trava.
Pra quem ficou curioso: uma das tatuagens é um Sankofa - um ideograma Adinkra, dos povos Acãs (da região que hoje compreende Gana, Burkina Faso, Togo e Costa do Marfim) que traz um pássaro cujo corpo aponta pra frente enquanto a cabeça se volta para buscar um ovo. Literalmente, a tradução da língua Twi significa san (voltar), ko (ir) e fa (buscar ou pegar), ou seja, volte e pegue.
O ovo é uma representação, em muitas culturas, da fertilidade, da vida, da renovação. Ao olhar para trás pra buscar o novo, Sankofa nos lembra da importância de aprender com o passado para caminhar na direção do futuro. Também nos remete à valorização da ancestralidade e na conexão entre o potencial e o já realizado.
Além do pássaro, Sankofa também pode ser representando como um coração estilizado - e provavelmente você já viu este desenho em muitos portões Brasil afora, já que muitos escravizados vinham da região da costa africana ocidental e dominavam a metalurgia. Ao serem colocados para trabalhar nesta área incluíram símbolos Adinkras nas ornamentações de janelas, portas e grades de ferro.
Sankofa como um coração
Aplicação de Sankofa num portão de ferro
Os estudos da memória e da nostalgia têm me levado a muitos lugares no Brasil e no mundo. Em breve, me conduzirão a uma nova aventura (conto mais em breve). Quis imprimir a memória no meu corpo.
A outra tatuagem é um peixe de Torres-Garcia, um artista uruguaio bastante conhecido pela sua obra América Invertida (1943).
Em várias obras do artista, encontramos esta figura do peixe. Confesso que não me detive para pesquisar os motivos que levaram Torres-Garcia a sempre representar um peixe, em várias épocas da sua trajetória artística, mas ela me iluminou para a segunda tatuagem.
O peixe foi a primeira representação gráfica dos cristãos, muito antes da cruz. Debaixo da perseguição romana, as primeiras comunidades marcavam o lugar das suas assembleias (significado da palavra igreja em grego) com um peixe estilizado. Era um modo de reconhecimento e ao mesmo tempo de despistamento das autoridades que reprimiam a religião nascente.
Por que a escolha do peixe?
Em grego antigo, peixe é “Ichthys” ou “Ichthus”. Cada letra de ΙΧΘΥΣ formava um acróstico com as iniciais de uma profissão de fé:
Iēsous (Jesus)
CHristos (Cristo)
THeou (de Deus)
Yios (Filho)
Sōtēr (Salvador)
Juntas, essas palavras significam Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador.
A religião sempre foi uma parte importante da minha vida, mas nunca gostei dos símbolos mais comuns para representar minha fé. O peixe surgiu como este signo forte que me conecta com o que acredito e com a latino-americana que sou. Minha fé foi forjada na teologia da libertação, que enxerga Cristo no outro, defende a opção preferencial pelos pobres, a transformação social e a luta contra a injustiça. Ser da América Latina, este continente tão rico e colorido e intenso, e tão marcado (até hoje) pela colonização espoliante, é um traço que vem ganhando novos contornos nas minhas pesquisas. Quando olho no meu antebraço o peixe de Torres-Garcia, todos estes sentidos me embalam com afeto.
O peixe original do Torres-Garcia, que inspirou minha tatuagem
Trago na pele agora estas cicatrizes. Tatuagens são cicatrizes, mesmo aquelas que não são movidas por nenhum simbolismo em especial. No pós, há todo um cuidado com a cicatrização. Ao contrário de cicatrizes dolorosas, estas, no entanto, nos dão satisfação e orgulho. E também nos lembram quem somos, o que fizemos e podem nos apontar para onde queremos ir.
Ps: Não fotografei as minhas tatuagens porque elas ainda estão em processo de cicatrização.
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