Rabiscos #111 - Etarismo digital

A leitura escolhida para esta semana na newsletter Rabiscos é “Etarismo digital”, texto nº 111, escrito pela jornalista, professora e pesquisadora Lucia Santa-Cruz.

No texto, Lucia reflete sobre como tecnologias que deveriam facilitar o acesso a serviços e atividades do cotidiano podem, na prática, comprometer a autonomia e a inclusão da população idosa. A reflexão também amplia o olhar para a acessibilidade digital, considerando as diferentes necessidades e limitações que acompanham o processo de envelhecimento.


Etarismo digital

Foto gerada por IA e retirada do Rabiscos

Agora precisamos confirmar sua identidade.

Esteja em um ambiente iluminado, dê preferência a um fundo claro e uniforme.

Tire os óculos, bonés, chapéus e aproxime o rosto.

Mantenha o rosto dentro do círculo.

Aproxime o rosto do celular.

Agora sorria/pisque/vire o rosto.”

Estas instruções com certeza soaram familiares a você. A biometria do rosto (ou reconhecimento facial) é uma tecnologia que utiliza inteligência artificial para mapear e converter características faciais únicas em dados numéricos, criando uma chave de autenticação. É amplamente utilizada para desbloquear celulares, acessar aplicativos bancários e validar identidades em portarias e aeroportos. Serve para provar que você é você - e de quebra, ainda dá prova de vivacidade, ou seja, que você continua vivinho da silva e não se transformou em Um Morto Muito Louco1.

Então com certeza você já passou por ela.

E se você, como eu, já está naquela fase em que de perto não enxerga nada sem óculos, sabe o quanto é difícil (ou melhor, impossível) ler as instruções na tela - se você teve de tirar os óculos! É um tal de aproxima, afasta, bota o óculos para ler a instrução, tira o óculos, o rosto sai do limite pré-definido, tenta de novo, vem mensagem de não reconhecimento…. Várias tentativas até que… ufa! funciona.

Com certeza você já passou por isso. Ou conhece alguém que já passou.

Esta semana apareceu no meu feed das redes sociais uma postagem sobre acessibilidade e serviços. Em como estes procedimentos que à primeira vista parecem conferir um grau maior de segurança e confiabilidade a transações bancárias e governamentais se tornam obstáculos para idosos e pessoas com deficiências.

A postagem reforçava que a maioria dos idosos não consegue utilizar estes serviços sem o apoio de um filho, neto ou sobrinho. Assim, o que pode até ser mais seguro ou prático termina por comprometer a já tão frágil autonomia dos mais velhos. E com todos os processos automatizados, não há a quem recorrer: praticamente não existe mais atendimento humano (até o Mercado Livre agora te atende por meio da IA! Conversar pra quê?)

Sempre me estarreço com o quanto estamos despreparados, como sociedade, para lidar com o envelhecimento. Não com o envelhecimento individual ou daqueles próximos a nós (o que não quer dizer que estejamos preparados para estes exemplos particulares). Estou falando de preparação para dar condições ao grupo social acima de 60 anos de estar plenamente em sociedade, dentro das limitações ou possibilidades de cada pessoa. Não pensamos a velhice de modo coletivo. Estamos obcecados pela facilidade da internet, do algoritmo e das inteligências artificiais.

Enquanto isso, excluímos do convívio social aqueles que não conseguem usar os dispositivos pensados para jovens de 30 anos. O nome disso é etarismo digital. A tecnologia, porém, não deveria excluir. Somos mais de 33 milhões de idosos no Brasil, dos quais 70% usam diariamente internet e smartphones, segundo dados do Censo e da PNAD (IBGE). Portanto, os serviços digitais precisariam levar em conta as características e necessidades específicas deste grupo. Que não só não é pequeno, como é crescente. E são um pouco mais lentos no raciocínio e precisam de interfaces mais amigáveis e adaptadas a eles.

Celulares, por exemplo, têm a opção de aumento do tamanho das letras e dos ícones dos aplicativos, para facilitar a leitura. Aí você entra no app do banco, e ele não é responsivo, ou seja, o conteúdo não se adapta às letras e ícones maiores. Parte dos comandos fica cortada, dificultando a navegação. O usuário fica perdido, não encontra o que foi fazer ali, por conta de uma interface mais confusa, ou dependente de letras pequenas que a pessoa mais velha não consegue enxergar.

Ou ele precisa de um token que é gerado em outro aplicativo e que se extingue em menos de 1 minutos, tempo que nem sempre é suficiente para o idoso navegar entre as telas.

Ah, mas eu conheço uma tia que tem 80 anos e mexe sozinha no celular, resolve tudo no banco dela.

Não vamos falar aqui dos casos particulares. Todo mundo conhece alguém que rompe a regra, que se destaca. Sejamos realistas - a maioria dos idosos, especialmente aqueles que não conviveram com as ferramentas digitais no ambiente de trabalho, tem muita dificuldade no manuseio destes instrumentos. Não se trata de ser condescendente, mas quem sabe pensar acessibilidade de fato?

Por exemplo: o reconhecimento facial não poderia ser acompanhado de instruções em áudio? Não poderia ser simplificado? Por que não pensamos nos mais velhos? Ou por que insistimos em isolá-los, obrigando-os a delegar estas funções a parentes mais jovens (os quais, por sua vez, nem sempre são as pessoas mais pacientes que já passaram pela face da terra, o que contribui para embaraçar ainda mais os idosos).

Esta semana vivemos uma situação que mostra como opera o etarismo digital.

Minha sogra precisa fazer prova de vida no INSS. A orientação oficial do órgão é fazer via aplicativo Meu INSS. Que funciona muito bem se você tiver biometria previamente colhida por alguma instância governamental: TRE ou DETRAN. Não é o caso, ela não vota há algumas eleições, não tirou a nova carteira de identidade e nem renovou a carteira de motorista.

Solução: ir ao banco por onde recebe o benefício.

Como ela tem 93 anos e está com enorme dificuldade de locomoção por conta da Doença de Parkinson, esta opção é das mais trabalhosas, envolve no mínimo duas pessoas para acompanhá-la. A última vez que ela teve de ir a uma agência bancária para resolver um problema de cartão o atendimento durou cerca de três horas. Se pudermos evitar este suplício, melhor.

Logo depois da pandemia, a prova de vida foi feita domiciliarmente: o INSS enviou um servidor público à casa dela.

Ligamos pro INSS e descobrimos pasmos que este serviço não existe mais. Perguntamos: e se a pessoa estiver acamada?

Aí ela pode ir ao DETRAN e renovar a carteira de motorista.

Renovar a carteira de motorista? Acamada?

Meu marido insistiu, mas o atendente parecia responder em looping. Não tem outro jeito, ou vai ao banco ou faz a biometria no TRE ou no DETRAN.

Insensibilidade? Excesso de burocracia? Ou seria pensar idosos apenas pelos casos isolados e não coletivamente? Como não se prevê uma situação dessas? E como fazem aqueles que estão com quadros graves? Hospitalizados? Em instituições?

No mesmo dia, caminho da casa dela até o centro de saúde do bairro, uma região com alta densidade de pessoas acima de 60 anos. Calçadas esburacadas, carros do Segurança Presente impedindo a passagem de pedestres, camelôs, árvores no caminho. Como passar com uma cadeira de rodas por este trajeto?

A opção de ir ao banco para fazer uma prova de vida ganha ares de rally.

Imagine renovar a carteira de motorista. Aos 93 anos.


Contatos do IntegraNETI:
E-mail: ceneti.neti@gmail.com Instagram: @ceneti.neti Facebook: @cenetineti

Comentários