"A Vida em Versos de Homero Pires" estreia espaço para produções sobre envelhecimento no blog

O Blog IntegraNETI, a partir desta edição, passa a publicar produções que tenham a pessoa idosa e o envelhecimento como temas centrais. Reportagens, crônicas, ensaios, fotografias, poemas, relatos e outros formatos poderão ser publicados no Blog, trazendo diferentes vozes e perspectivas sobre o envelhecer. A proposta é reunir produções de estudantes, pesquisadores, jornalistas, profissionais de diferentes áreas e de todos aqueles que tenham uma história, experiência ou olhar a compartilhar sobre o tema.

A estreia é com o perfil jornalístico produzido por Julia Cataneo, estudante do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), produzido para a disciplina Linguagem e Texto Jornalístico V, no semestre 2025.2. O trabalho foi desenvolvido sob orientação da professora Tattiana Teixeira.


A Vida em Versos de Homero Pires

por Júlia Cataneo


A casa balança com o vento sul que sopra na praia de Jaguaruna. As tábuas de madeira rangem, a amendoeira do quintal se inclina, o cheiro de manjericão da horta se mistura com o de maresia, e assim, exala pela Rua Francisco Salgado. A fachada tem um muro baixo que soa como um convite para entrar. Na varanda, duas cadeiras em 45 graus moldam a cena: uma ocupada, outra sempre vazia, à espera de alguém para dividir um chimarrão e ter uma conversa profunda. Nesse cenário, sento ao lado do poeta Homero Pires. Aqui, nesta varanda que já foi palco de muitas das suas declamações. “Fique à vontade!”, ele me diz com um ar sereno de quem viveu o bastante para contar boas histórias.

Apesar da coincidência curiosa — um amante da poesia que carrega o nome do autor da Odisseia — Homero está longe de ser um homem erudito. O poeta de 80 anos é um gaúcho do interior do Rio Grande do Sul, do pequeno distrito de Sete Léguas. Ele cresceu em meio a estradas de chão, e do vai e vem de caminhões que cruzavam a região para transportar gado. Filho de uma família simples e conservadora, cuja vida girava em torno do trabalho rural e do comércio local. Ainda adolescente, aos 16 anos, deixou a casa dos pais para tentar a vida em Porto Alegre. A decisão, dura e precoce, moldaria toda a sua trajetória.

Na capital, enfrentou fome, solidão e longas jornadas de trabalho em hotéis onde aprendeu a servir. Foi mensageiro, camareiro e ajudante. O mundo se ampliou ainda mais quando ingressou no serviço militar da Aeronáutica e, depois, no setor de transporte, no qual participou da construção de linhas internacionais que conectavam Porto Alegre a Buenos Aires e Montevidéu. Viajar, dali em diante, deixou de ser desejo e virou profissão.

A vida seguiu em saltos: Rio de Janeiro, São Paulo e Foz do Iguaçu. Através da empresa Pluma, no qual dedicou a maior parte da sua vida, morou em muitos cantos do Brasil. Mudanças que vinham quase sempre depois de injustiças, conflitos internos ou circunstâncias que nunca dependiam apenas dele. Mais tarde, o destino o conduziu ao garimpo, o reencontro com o irmão em Rondônia, Porto Velho o fez conhecer de perto a violência e a brutalidade de uma economia movida pelo risco. Carregou cargas para dragas, transportava combustível em estradas precárias. Homero conta que a morte era rotina. Um acidente o tirou dali, mas também quase o tirou da vida.

Foi no retorno ao Sul que reencontrou estabilidade. Comprou caminhão próprio, voltou à estrada, começou a fazer pequenos fretes e com o tempo encontrou o ritmo possível para continuar. Fincou raízes na praia, na cidade de Jaguaruna, localizada no litoral sul catarinense, nessa casa que conversamos, comprada quando o bairro Arroio Corrente ainda não tinha comércio nem movimento.

Mas foi a poesia que o acompanhou desde o começo. O menino do interior virou o homem que escreve sonetos em qualquer papel disponível, que carrega guardados versos antigos, que aprendeu a rimar antes mesmo de entender completamente o que era métrica.

Nesse momento da nossa conversa, Homero enche os olhos de lágrimas, pede desculpas, e começa a falar das saudosas professoras Adilene e Ancídia que o alfabetizaram na escola Rui Barbosa. Graças a elas, desde os seus 6 anos, escreve sobre tudo: infância, fé, trabalho, tempo, política e solidão. Nem sempre gostou de mostrar, por muito tempo preferiu guardar ou entregar somente para quem entenderia a profundidade na escolha de suas palavras. 

Mas os seus poemas ganharam um novo significado quando foram organizados e publicados em forma de livro pelos vizinhos, a coletânea “Entre Fretes & Versos” foi um reconhecimento em vida da sua arte. Ao indagar se ele ainda escreve, Homero não hesita: “Claro, é isso que me preenche”, responde. Em seguida, levanta da cadeira, pega uma pastinha com a logo da Pluma e, com cuidado, retira um papel onde havia rabiscado um novo poema naquela manhã. A caligrafia, surpreendentemente bonita, dizia:

“Pela idade se registra um tempo de verdade.
Os dias que vivemos na mais pura flor da idade. 
E nesses anos passando, se vamos vangloriando um registro de saudade”

Hoje, com 80 anos, o tempo parece correr rápido demais. Ele já não enfrenta estrada, já não caminha até o mar, já não viaja como antes. Passa os dias entre palavras cruzadas, jornal impresso e conversas demoradas. Observa a vida com humor, da varanda de sua casa, com ironia e certa melancolia. Dos 10 carros que passam na rua, 9 buzinam o comprimentam. Diz que não sabe até quando suas memórias vão ficar nítidas por isso conta, repete, organiza. Escrever, para ele, é também uma forma de não deixar desaparecer.

Homero Pires é alguém que viveu inúmeras vidas dentro da mesma. Quase como um paradoxo, a arte de escrever aparece como contrapeso a uma vida inteira de dureza. Um sujeito sensível que encontrou uma maneira singular de existir no mundo.

Então ele respira fundo, segura a cuia quente entre as mãos e sorri. “A vida é isso aqui”, comenta, olhando para a rua. Enche mais uma cuia de chimarrão. Antes que termine o gesto, o som de passos se aproxima: é mais um vizinho chegando para puxar conversa. Homero levanta a sobrancelha, aponta para a cadeira vazia e diz, como quem repete um rito antigo: “Senta aí, a prosa é boa.”

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