No texto de hoje da Professora e Jornalista Lucia Santa Cruz , um caso divertido faz refletir sobre os direitos, ou não, das pessoas idosas. Boa leitura!
Rabiscos #76: Das vantagens (ou não) de ser oficialmente idosa
Sete amigas, depois de passarem um dia intenso de trabalhos e discussões num congresso acadêmico, decidem sair para jantar. Vindas de quatro estados diferentes do país, a ocasião também era uma oportunidade de estarem juntas.
Deixam a universidade, se dividem em dois carros de aplicativos e chegam ao restaurante. Quando descem dos carros, são recebidas por um frio intenso e um ventinho gelado que aumentam o desejo pela refeição quentinha.
Aí se deparam com uma fila enorme do lado de fora do restaurante.
Embora pesquisem memória (ou talvez por isso mesmo), nenhuma delas havia se dado conta de que era dia dos namorados. E que o restaurante, que fora muito bem recomendado, era um destino típico para a comemoração da data.
Impasse.
E agora? Esperamos? Mas é uma multidão de casais. Não vamos conseguir mesa! Vamos pra outro lugar. Pra onde? Tudo deve estar cheio, e não dá pra ficar em mesas do lado de fora (uma experiência que duas delas haviam vivido na noite anterior, quando foram a um bar lotado). Ah, parece que tem um shopping perto, vamos pra lá que pelo menos é quentinho e conseguimos algum lugar pra comer. Será que dá pra ir a pé?
Vamos até o manobrista, para perguntar se o shopping era longe e se dava pra ir a pé. Ele olha pra nós, inclina um pouco a cabeça....Não é longe, pra vocês, não sei, não.
Fomos instantaneamente taxadas de velhas, e por isso incapazes de caminhar algumas quadras, embora das sete apenas 3 tenham mais de 60 anos, e duas fossem bem mais jovens.
Enquanto eu ficava meio estarrecida com o comentário e com o que ele implicava, uma de nós, mais sagaz, vira e fala: nós temos prioridade. Isso é lei! Vou lá dentro. Lá vai ela acompanhada por uma de nós, enquanto as outras cinco permanecem incrédulas e tentando pensar o que fazer na sequência quando o não se confirmasse.
Enquanto isso o frio aumentava, congelando nossos pensamentos.
Alguns segundos depois a boa notícia: sim, tínhamos prioridade, teríamos de esperar uns 40 minutos, mas passaríamos à frente de vários daqueles enamorados desejosos de celebrar o amor naquela noite.
E o melhor: poderíamos esperar do lado de dentro do restaurante!
Onde já estavam muitos outros casais esperando, lembrando aquelas filas de brinquedo da Disney que são muito maiores do lado de dentro do que no exterior.
Super contentes e aquecidas, até nos conformamos com a longa espera.
Que se reduza meros 15 minutos.
Subimos as escadas e somos conduzidas a uma mesa redonda de sete lugares (melhor ainda porque nos deixou próximas umas das outras), e somos super bem atendidas.
Comemoramos a alegria de termos prioridade por parte de nós já ser oficialmente idosa, por os estabelecimentos respeitarem a lei, e por não termos sido fuziladas pelos namorados que aguardavam.
Até que uma de nós, um pouco mais lúcida, observa: não foi a prioridade que nos conseguiu a mesa. Foi o fato de ser uma mesa redonda com sete lugares, que não seria usada para acomodar um casal. O que o restaurante fez foi esperar vagar a mesa redonda e reocupá-la com sua plena capacidade.
Choque de realidade.
Que não nos impediu de desfrutar o jantar, contar histórias e gargalhar muito, celebrando o dia dos namorados sem os nossos respectivos, mas com muito amor e alegria.
Um pequeno adendo – impressionante a paciência dos casais que aguardavam tanto por uma mesa para um jantar romântico. Sei que o amor é lindo, mas uma espera tão longa seria para mim uma ducha de água fria, acabando totalmente com o clima.
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