"Newsletter Rabiscos #75: Decisões sobre decisões" - Quando os filhos podem começar a decidir por nós?

É com muita alegria que o blog integraNETI publica mais um texto da jornalista Lucia Santa Cruz, autora da Newsletter Rabiscos, em que ela reflete sobre o envelhecimento. Lucia é parceira do integraNETI. 

Rabiscos #75 - Decisões sobre decisões

Recentemente, estive num evento acadêmico em que uma das palestrantes era uma das minhas referências teóricas. Não escondo a emoção que é conhecer a pessoa que pensou, estruturou e publicou aquelas ideias que depois me ajudam a refletir em minhas pesquisa. Às vezes, porém, encontrar a pessoa por trás do pesquisador não se mostra realmente agradável. Isso porque mesmo brilhantes, cientistas também são seres humanos, têm defeitos, manias, dias bons e dias ruins, estão sujeitos a mau humor e até a mau hálito. Por isso, tem gente que prefere nunca encontrar seus ídolos teóricos, porque gostar de alguém em teoria é sempre mais fácil (ou menos desgastante) que se deparar com a pessoa em carne e osso.

Foto por Paniz gm, via Unplash.

Mas nesse caso não foi isso que aconteceu. Fiquei encantada com o encontro, com a delicadeza da pessoa e com a beleza de sua fala. Ela havia vindo de ônibus de uma cidade do interior, e depois pegara o metrô até o local do evento. Já admirei sua disposição neste deslocamento utilizando transporte coletivo. E sozinha. Cabe dizer também que ela já não é jovem, mas está aposentada, embora siga fazendo pesquisas, escrevendo livros e dando conferências mundo afora. Conversando antes do evento, ela comentou que as filhas moram em outro país, e que por enquanto ela segue vivendo aqui no Brasil. Mas que já combinara com as filhas que, quando fizer 80 anos, vai acatar o que elas, as filhas, decidirem para ela. Se acharem melhor que ela se mude para o mesmo país, para ficar mais perto delas, irá, sem problemas. “Acho que chega uma hora em que não podemos mais decidir sozinhos o que fazer da nossa vida. E não quero ser um motivo de preocupação para elas”.

Imediatamente imaginei uma mãe idosa a um continente de distância, filhas administrando cuidadoras em fusos horários inconciliáveis, desencontros e inquietações dominando o panorama. Admirei mais ainda a minha referência teórica, que, na minha frente, se mostrou mais do que pragmática: se desvelou consciente dos limites que uma longa vida pode nos impor.

Sei que ao falar isso posso parecer querer estabelecer regras, idades máximas, parâmetros que não necessariamente deveriam ser impostos a todo mundo. Já falei aqui sobre estes marcos etários que podem ser aleatórios e não refletirem as condições de cada um. Não se trata disso.

Acredito que todas e todos nós precisamos nos preparar para uma velhice mais saudável, mais autônoma e mais feliz. Para isso, precisamos de hábitos de vida que começam muito antes, ainda na juventude: alimentação de qualidade, prática de exercício, hobbies, amigos, afetos, etc.

Porém também precisamos ter consciência de que, assim como não podemos falar em uma única juventude, não existe uma só velhice. Existem juventudes, no plural, com suas diferenças sociais, econômicas, culturais, políticas, espirituais. E nos deparamos com velhices no plural, com suas diferenças de classe, gênero, território, e, especialmente, de saúde.

Para muitos idosos, as condições são muito mais difíceis que para outros. E aqui entram tanto fatores genéticos quanto ambientais, mas também o histórico de doenças que cada um porta em seu próprio corpo. Se cada um de nós conhece alguém que, com 90 anos, faz pilates, caminha sem precisar de apoio e viaja sozinho, também cada um de nós conhece alguém que com 80 necessita de cuidados médicos permanentes e muitas vezes de atenção constante.

Porém mesmo que estejamos no primeiro grupo, será que seremos assim para sempre? Talvez chegue um momento em que tenhamos dificuldades pela própria idade. E aí, volto à decisão da minha referência teórica: não devemos, nesse momento, estar abertos a aceitar as escolhas que outros façam por nós? Que, obviamente, devem ser conversadas conosco, nunca impostas. Talvez tenhamos de ter a humildade que não poderemos mais decidir somente pela nossa cabeça, porque estas decisões podem deixar inquietos e preocupados sem necessidade aqueles que nós amamos, como nossos filhos.

Obviamente é muito fácil falar (ou escrever) isso quando se está distante de uma situação como essa. Tenho convicção que deve ser muito difícil, depois de uma vida inteira de autonomia, acatar o que aqueles seres que você suou para colocar no mundo decidirem para você.

Talvez estejamos falando de um exercício profundo de humildade e de confiança nos filhos. De acreditar que eles escolherão caminhos acolhedores e afetuosos para nós. Que as soluções serão as melhores, as mais adequadas, as mais possíveis. Um exercício de confiança, em última instância, no trabalho que fizemos os educando durante tantos anos. Que eles se tornaram capazes de tomar decisões acertadas e compartilhá-las conosco.

Não para que eles mandem em nós. Para que nós não sejamos fonte de preocupação para eles, e sim sinais de amor.



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