Algumas definições sobre envelhecimento: confira o texto bem humorado da jornalista Lucia Santa Cruz, que fechou parceria com o blog integraNETI
Trazer para os leitores diferentes vozes e reflexões sobre o envelhecimento é o objetivo do blog integraNETI. Entre essas vozes espalhadas pelo Brasil e pelo mundo, chamou a atenção do blog a da jornalista Lucia Santa Cruz, que, desde que completou sessenta anos, publica uma newsetter chamada Rabiscos. Lucia, em seus textos, cruza experiências do cotidiano, pensamentos, questionamentos e dados oficiais sobre a população idosa, contribuindo para dar visibilidade às questões sociais, políticas e culturais que envolvem a chegada da idade.
O blog integraNETI propôs à jornalista a reprodução de alguns dos seus textos no contexto do blog. Lucia aceitou e é com satisfação que informamos que nossos leitores serão brindados, a cada quinze dias, com pensamentos e informações que fazem sentido para nosso público e nossa realidade.
A carioca Lucia Santa Cruz é, além de jornalista, professora e pesquisadora na área da comunicação. Sempre gostou de escrever. A newsletter Rabiscos é sucessora de um outro material que escrevia, em 2017, sobre o tema do envelhecimento, quando estava na casa dos cinquenta anos e percebeu que, junto com marido e amigos, se encaminhava para ser considerada oficialmente idosa no Brasil - e que esta era uma pauta importante.
Em sua primeira edição da newsletter Rabiscos, conta que não conseguiu manter uma regularidade nas suas escritas dos cinquenta anos, mas que, em 2023, encontrou sua antiga página e foi impulsionada pela vontade de escrever novamente sobre o assunto, agora na plataforma Substack.
Para a estreia dessa parceria, a jornalista selecionou a edição 82 de sua newsletter, na qual escreve sobre as situações em que se pega pensando sobre o que é envelhecer, sem base científicas ou evidências concretas.
Leia abaixo.
Rabiscos #82 - Definições rápidas
Volta e meia quando estou no meio de alguma atividade bem corriqueira, me pego pensando: isso é envelhecer. Daí tive a ideia de hoje trazer algumas destas “definições” sobre o que é envelhecimento. Sem nenhuma base científica, nenhuma evidência concreta. Quase vozes da minha cabeça.
Envelhecer é ter um creme para cada parte do corpo. Esta frase ouvi há anos de alguém improvável - Adriane Galisteu - e na hora me pareceu sem o menor sentido. Primeiro porque quando ela falou não tinha nem 40 anos, estava longe de ser uma velha. E porque eu mal usava hidratante.
Pois bem, alguns anos mais tarde, aqui estou eu, passando filtro solar todo dia, mesmo quando está chovendo…. Aí tem o hidratante do rosto, o hidratante do corpo, o creme do pé, a pomada da unha, o gel de não sei o quê… Com vinte e poucos anos, minha necessaire de viagem tinha shampoo, condicionador e sabonete. Agora, a necessaire é quase uma reedição das frasqueiras dos anos 1960….
Envelhecer é também se pegar pensando que a máquina de lavar roupa deveria ficar na altura do seu tronco, porque ficar se abaixando para pegar a roupa lavada nem sempre é fácil. Envelhecer é entender que os joelhos emperram.
Envelhecer é, num espaço de tempo menor que uma semana, receber a notícia do falecimento de três pessoas que em maior ou menor grau você conheceu, conviveu por um período, trabalhou. Não mais os avós dos amigos, ou os pais, mas pessoas da sua geração. Não por uma fatalidade, um acidente inesperado, uma doença devastadora na juventude. Envelhecer é reconhecer os mortos.
Envelhecer é se surpreender com o envelhecimento alheio. Estava assistindo uma série no streaming e no meio da temporada surge uma nova personagem, interpretada por uma atriz cuja carreira acompanho há anos, que andava meio fora do meu radar. Reparo em seu rosto vincado de rugas: na minha cabeça o que havia ficado registrado eram suas feições aos 30 anos. Como se somente eu envelhecesse, sua imagem jovem cristalizara na minha memória.
Envelhecer é contar o tempo em décadas. Não mais comentar “eu encontrei com eles há uns três anos”, mas dizer que trabalhou com alguém há uns vinte anos…. Os anos são tantos que fica melhor dizer que eu conheço meu marido há quase quatro décadas…. Ou que tenho amizades com mais de cinco décadas.
Em relação aos amigos, esta talvez seja a parte mais gostosa de acumular anos de vida: estar com as pessoas e lembrar o que vivemos juntas, ter consciência do caminho percorrido com quem foi importante para você. Não se trata de saudosismo ou nostalgia pura. Nada de um sentimento de fim de linha, não há mais futuro para nós, vamos viver do passado. Envelhecer é recordar com carinho.
Envelhecer também é fazer planos. Planos mais pé no chão, planos mais factíveis, planos que têm mais chance de se tornarem realidades. Não mais delírios ou meros sonhos. Planos para acontecerem. Não aquela coisa vaga: vamos marcar? Sabemos que não temos mais todo o tempo do mundo. Precisamos agir. Pode ser a viagem nas próximas férias, o jantar com os amigos, ir à praia no final de semana.
Ou até escrever toda semana sobre envelhecimento.
Leia o texto na íntegra: https://open.substack.com/pub/luciasantacruz/p/rabiscos-82-definicoes-rapidas?utm_campaign=post-expanded-share&utm_medium=web
Link para a newsletter Rabiscos no Substack: https://luciasantacruz.substack.com/
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Boas Vindas à Jornalista Lúcia Santa Cruz! O texto de estreia está delicioso e chega como um espelho: me vejo em várias das situações relatadas!
ResponderExcluirExcelente conquista!
Vanda Araújo