Rabiscos #77 - "Compatível com a idade" : Lucia Santa Cruz reflete sobre expectativas da sociedade com as Pessoas Idosas

Quinzenalmente, o blog integraNETI compartilha com os leitores os textos escritos pela jornalista, professora e pesquisadora Lúcia Santa-Cruz, focados em experiências que permeiam o envelhecimento. No texto de hoje, a jornalista convida a refletir sobre as expectativas ou a falta de expectativas da sociedade em geral com relação às pessoas idosas e como realmente elas se sentem. Não tem como não se identificar.

Foto por Robina Weermeijer on Unsplash
   

Pego o resultado do teste ergométrico que aponta um resultado “bom, compatível com a idade”. Embora fique contente com ter passado na prova (conforme a vida avança, é cada vez mais difícil passar neste tipo de prova - e nem adianta estudar), me irrita um pouco o complemento - compatível com a idade. Quando a gente tem 30 anos, os índices de colesterol estão bons, mais ou menos ou periclitantes. Mas nunca nem o laboratório nem o médico completam o resultado com esta expressão. Embora os valores possam até variar de acordo com a faixa etária, o sexo e o estado do paciente, não encontramos esta frasezinha que no fundo só nos lembra que… estamos mais velhos.

É como se a sociedade não esperasse mais muito de nós, que cruzamos o cabo da boa esperança (outro eufemismo para o envelhecimento). Por este motivo, um resultado bem mediano se torna bom, pois, afinal, alguém desta idade não conseguiria mesmo desempenhar melhor. Isso é o máximo a que chegamos, não conseguimos ir além disso, não rendemos mais como antes. O sarrafo é colocado num nível bem inferior.

Ser velho/a também é não provocar expectativas nos outros, que nos encaram sempre dando um desconto nas nossas capacidades, no nosso rendimento, na nossa performance.

Não estou me insurgindo contra a biologia que com certeza aponta: mas isso é mesmo o envelhecimento! Nem estou negando que haja um declínio das capacidades motoras, orgânicas, clínicas, psicológicas, mentais, emocionais. Muito menos desconheço que muitas pessoas passam por processos de envelhecimento muito difíceis, seja por doenças crônicas, pela falta de recursos e de infraestrutura, seja pela solidão. Não estou negando a idade. O que me incomoda é ver como o ambiente social nos enquadra como pessoas que a priori serão menos.

Contra esta percepção eu me insurjo. Não me sinto menos, pelo contrário, me sinto cada vez mais. Sou a soma de experiências acumuladas, que me tornaram quem eu sou hoje. Como posso ser menos? Se juntei conhecimento, vivências, amores, tristezas, se passei por tanta coisa?

Estamos acostumados a ver a velhice como este momento da decrepitude que caminha para o fim. Nem vou entrar numa perspectiva religiosa, alegando que a finitude pode ser um novo começo, mas talvez possamos entender este tempo como realmente o momento da maturidade (e isso não é um eufemismo). Eu me sinto muito mais madura depois de ter vivido todos estes anos. Não me enxergo perdendo lascas minhas pelo caminho. Não me sinto a menos.

Para mim, enxergar o envelhecer desta forma é que se torna compatível com a idade. Não exames clínicos/laboratoriais/médicos.

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